Arquivo mensais:agosto 2015

Brasileiro: povo alegre, amistoso e cordial?

Por Bruno Bortolucci Baghim

Brasil, terra de uma gente cordial e amistosa. Formado por um povo generoso e alegre, fã de samba e futebol.

Mas será que em algum momento da história fomos realmente tudo isso?

Talvez os verdadeiros brasileiros, aqueles que aqui já habitavam antes dos portugueses, pudessem sê-lo. Pena que tenham sido dizimados ou “convertidos” a um modelo “europeu” de vida, corrompidos em suas crenças e destruídos enquanto civilização.

A partir daí, o que o Brasil e seus diversos tipos de brasileiros fizeram que justificasse essa imagem de cordialidade?

Por quatro séculos escravizamos povos africanos. Pessoas trazidas do outro lado do oceano em galeras insalubres para aqui trabalharem à custa do próprio sangue. Talvez não seja daí que venha a fama de nossa cordialidade.

Já no século XIX destruímos nosso pequeno – mas à época promissor – vizinho Paraguai em prol dos interesses de uma distante e nem tão generosa parceira, a Inglaterra. Historiadores relatam que mais de 75% da população paraguaia morreu durante essa guerra fratricida, sendo que entre os homens adultos do país o número de baixas atingiu impressionantes 99,5%. Também não seja daí que venha a nossa boa fama.

No século XX, convivemos com ditaduras que tinham forte apoio popular. A de Getúlio chegou a se alinhar ao nazismo em um primeiro momento, inclusive enviando seus prisioneiros políticos para os campos de concentração de Hitler. Apesar dessa e de outras, Vargas tornar-se-ia herói nacional após seu suicídio. Não contentes, os brasileiros ainda invocariam “Deus e a família” para clamar por uma intervenção militar que fizesse frente à “ameaça comunista”. O resultado é conhecido de todos: por boa parte da segunda metade do século XX estivemos sob o jugo de um governo militar, notoriamente violento e criminoso. Tais fatos não devem ter servido para que fôssemos tratados como “povo amistoso”, ainda que as práticas ditatoriais sejam curiosamente idolatradas até hoje por parcela relevante da pitoresca população tupiniquim.

Somos um povo racista. Ainda exterminamos a população negra das periferias do Brasil. Avalizamos abusos e propagamos piadas racistas. Vociferamos contra as cotas raciais, invocando cinicamente a “meritocracia” – ainda que o mérito, no caso, seja o dinheiro de papai até pelo menos o fim da faculdade. E pior: sempre negando a existência do racismo no multicolorido e miscigenado Brasil. Cordialidade?

Outras formas de discriminação também encontram terreno fértil por estas plagas, assim como o fundamentalismo religioso. Ainda somos machistas e misóginos. Discriminamos, matamos e estupramos nossas mulheres sem qualquer pudor, como se isso estivesse no rol de direitos sagrados do “homem de bem”.  Negamos à comunidade LGBT direitos básicos, e estimulamos a violência contra tal grupo de pessoas. Falamos em “ditadura gayzista” e arrogantemente adotamos um modelo de família como sendo o “tradicional”, o correto. Invocamos escrituras sagradas para rasgar a Constituição em um Estado Laico, propagando o discurso de ódio e de intolerância, por mais que isso, paradoxalmente, contrarie a essência de simplesmente todas as religiões conhecidas.

Gritamos contra a corrupção, mas só quando ela beneficia outros que não nós mesmos ou nossos aliados. Hipocrisia? Não. Isso é ser pessoa “de bem”.

Apoiamos a pena de morte, a tortura e o encarceramento de adolescentes. Aplaudimos apresentadores de televisão sanguinários e seus programas ofensivos ao mais simplório bom senso – o que levará um deles a tentar ser prefeito da maior cidade brasileira. Somos um povo que vibra com a violência policial e que lincha pessoas diariamente, ainda que tal proceder seja mais criminoso, e, porque não, “diabólico”, do que a esmagadora maioria dos delitos praticados diariamente.

Chegamos ao ápice de não nos sensibilizarmos com o corpo de um cidadão brasileiro sendo literalmente destruído por um trem no Rio de Janeiro apenas para que não houvesse atraso na operação das linhas. É o que nos dizem leitores do jornal “O Dia”, onde dos 14.942 que votaram em uma enquete sobre o assunto, nada menos do que 9.028 concordaram com o procedimento de destruição do corpo em prol do fluxo dos transportes ferroviários.

Povo alegre, amistoso e cordial? Estamos no aguardo dessa figura folclórica que salvará nossa pátria, já que até aqui só temos visto assassinos cruéis, mesquinhos, preconceituosos, egoístas, e corruptos.

 

Bruno Bortolucci Baghim é Defensor Público do Estado em São Paulo, membro do Núcleo de Combate à Discriminação, Racismo e Preconceito da Defensoria Pública, especialista em Ciências Criminais e Direito Constitucional, e idealizador do Pessoal dos Direitos Humanos