Indonésia, Paraná… dias de um ano até aqui formidável

Por Bruno Bortolucci Baghim

Os últimos dez dias foram de grande alegria para muita gente.

Primeiro, a Indonésia voltou a matar.

País sério, novo modelo para muitos. Lá é dura lex sed lex [1], como diriam acadêmicos do início do curso de Direito, ainda orgulhosos com as primeiras palavras em latim. País soberano, que cumpre suas leis ignorando os apelos do mundo. Exemplo de combate ao crime, e que embora afirme e reafirme seu rigor na aplicação da lei penal, é um país corrupto que se aproveita desse mesmo rigorismo para extorquir pequenas fortunas dos condenados e respectivos familiares, ávidos pela salvação. Afinal, o dinheiro vale mais do que integridade ou a coerência, e o que importa é que lá “bandido bom é bandido morto” (salvo quando puder pagar, mas esse “detalhe” podemos ignorar enquanto compartilhamos o meme do presidente Joko Widodo).

Indonésia que curiosamente violou sua própria e medieval legislação: o brasileiro executado, Rodrigo Gularte, foi diagnosticado com esquizofrenia, o que impediria a execução da pena de morte… Uma questãozinha incômoda que transformou o fuzilamento em algo ainda mais criminoso e grotesco, mas que também pode ser relevada.

Reação em terras tupiniquins? Júbilo, aplausos, fotomontagens exaltando o presidente indonésio e os comentários de sempre, de religiosa humanidade, circulando pela internet. A vida do condenado brasileiro servindo para ajudar a manter a “ordem” no distante, radical e corrupto país. O que mais o honesto e folclórico “homem de bem” poderia querer?

Surpreendentemente, as coisas ainda poderiam melhorar. Que tal tropas de choque em ação contra civis já no dia seguinte, e no próprio Brasil? Pitbulls, bombas, cassetetes e balas de borracha chovendo sobre professores e outros servidores públicos do Paraná, que legitimamente se manifestavam em frente à Assembleia Legislativa local (curiosamente, também conhecida como “Casa do Povo”). Naquela quarta-feira, 29 de abril de 2015, o Brasil e o mundo puderam ter a certeza da forma como são bem tratados aqueles que, pensando estar em um verdadeiro Estado Democrático, saem às ruas para lutar por seus direitos.

E como reagiram a isso nossos homens e mulheres de bem? Panelaço gourmet em protesto contra as tropas de choque e o massacre? Ou alegações de que houve “confronto” com “black blocs” infiltrados na manifestação, únicos responsáveis pelo início da confusão? São eles os culpados por duas centenas de manifestantes feridos! E prenderam algum desses “black blocs”? Não[2], mas com certeza foram eles. O governador disse que foram, e a tropa de choque é amiga. Já não tiramos selfies com ela? É só reunir um pessoal honesto e reivindicar a coisa certa que tudo corre sem desordem. Não foi assim em 15 de março e 12 de abril?

Este ano vem se mostrando melhor do que a encomenda. Pautas ultraconservadoras ganham força para salvar o Brasil de criminosos, feministas, homossexuais e comunistas, trazendo junto o ajuste fiscal e a supressão de direitos historicamente conquistados para viabilizar o crescimento econômico. E a educação? No maior estado da federação a paralisação de professores não é considerada greve, e no outro, vizinho, é reprimida com tropas de choque. Qual é o próximo avanço, pergunta o brasileiro ordeiro?

 

Bruno Bortolucci Baghim é Defensor Público do Estado em São Paulo, membro do Núcleo de Combate à Discriminação, Racismo e Preconceito da Defensoria Pública, especialista em Ciências Criminais e Direito Constitucional.

____________________________________________________________

[1] “A lei é dura mas é a lei”

[2] “Destaque-se que nenhuma das pessoas detidas foi autuada em virtude da prática de crime de dano ao patrimônio público ou privado, porte de arma ou artefato explosivo, não havendo nenhum indício de que tais manifestantes sejam integrantes de grupos denominados black blocs” <http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/05/02/defensoria-publica-do-pr-contraria-richa-e-nega-black-blocs-em-confronto.htm>

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>