Alguém possui o monopólio de Cristo?

Por Bruno Bortolucci Baghim

Domingo passado, durante a Parada do Orgulho LGBT na capital paulista, a atriz Viviany Beleboni, que é transexual, gerou polêmica ao desfilar pela Avenida Paulista crucificada como Jesus Cristo, seminua, e com os dizeres “Basta de Homofobia com GLBT” em uma placa logo acima de sua cabeça[1].

Boa parte do cristão povo brasileiro se ofendeu com a representação, o que foi demonstrado por incontáveis mensagens em redes sociais e outros meios de comunicação. Viviany, além de xingada, foi ameaçada. Obviamente, o ato também gerou comoção entre os “religiosos” do Congresso Nacional, merecendo destaque especial o projeto de lei rapidamente apresentado pelo Deputado Rogério Rosso (PSD-DF)[2] para tornar hediondo o delito de “ultraje a culto”, bem com para elevar a sua pena para reclusão de 04 a 08 anos, o que é do feitio do legislativo brasileiro, adepto de um Direito Penal casuístico, atécnico, e desproporcional.

Além disso, deputados das bancadas evangélica e católica protestaram no plenário da Câmara na última quarta-feira, 10/06, contra a Parada LGBT, a Marcha das Vadias e a Marcha da Maconha, exibindo fotos de tais eventos com a pergunta “Você é a favor disso?”. Como se não bastasse, a despeito de serem representantes do povo em um Estado Laico, e de estarem no plenário da Câmara, prédio público de um dos Poderes da nação, rezaram um Pai Nosso.

Mas vamos adiante.

A “crucificação” de Viviany foi amplamente noticiada e comentada, sendo o tema praticamente esgotado na mídia nacional[3]. Segundo própria Viviany, ela usou “as marcas de Jesus, que foi humilhado, agredido e morto. Justamente o que tem acontecido com muita gente no meio GLS, mas com isso ninguém se choca.” 

Assim, penso que nos resta formular simples questões, para reflexão dos amigos do Pessoal dos Direitos Humanos, e como humilde sugestão para as discussões em que venham a se envolver por conta do tema no trabalho ou no almoço de domingo com a família:

1) A reação das “pessoas de bem” do Brasil seria a mesma se simples e unicamente trocássemos Viviany por um ator homem, ainda que homossexual?

2) Haveria alguma reação desta mesma turma do bem se o crucificado fosse um ator homem, heterossexual, desfilando na “Marcha da Família”?

3) Qual a diferença entre Viviany e os atores hipotéticos citados?

4) Alguma religião possui monopólio sobre o uso da “imagem” de Cristo ou da Cruz?

5) Por que os mesmos que compartilharam nas redes sociais os dizeres Je suis Charlie, defendendo a liberdade do expressão contra o fundamentalismo islâmico, agora amaldiçoam a “blasfêmia” de Viviany?

6) Liberdade de expressão é só para os amigos?

7) Em que século vivemos?

8) O que o verdadeiro Cristo faria em relação à Viviany?

 

Fico por aqui, ainda esperançoso por um Brasil mais tolerante e amoroso.

 

Bruno Bortolucci Baghim é Defensor Público do Estado em São Paulo, membro do Núcleo de Combate à Discriminação, Racismo e Preconceito da Defensoria Pública, especialista em Ciências Criminais e Direito Constitucional, e idealizador do Pessoal dos Direitos Humanos

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[1]http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2015/06/representei-dor-que-sentimos-diz-transexual-crucificada-na-parada-gay.html

[2] http://noticias.terra.com.br/brasil/politica/cunha-colocara-em-votacao-urgencia-do-projeto-da-cristofobia,24e9a145d0f0210de5f40a3b58acfd98cfx8RCRD.html

[3] http://justificando.com/2015/06/10/um-jesus-crucificado-em-cada-poste/

 

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