Uma homenagem ao homem[1] de bem

Por Bruno Bortolucci Baghim,

Iniciado 2016, percebemos que cometemos uma séria falha em 2015, nosso primeiro ano de Portal: não prestamos nenhuma homenagem ao nosso mais caricato personagem, o “homem de bem”. Logo ele, que ganhou tanta notoriedade no Brasil nos últimos anos, e que tanto influencia o nosso cotidiano.

Mas quem é ele, afinal?

O homem de bem gosta de doutrinar. Tem conhecimento nato dos mais variados assuntos, especialmente relacionados à política, direito e economia, e não perde a oportunidade de tecer seus comentários, de formar opinião. Sempre começa suas exposições com expressões do tipo “Eu acho que…”, ou “na minha opinião…”, encorpando seus argumentos com informações colhidas na revista VEJA e nos profundos blogs de seus colunistas (afinal, não basta assistir ao Jornal Nacional, é preciso ser uma pessoa dada à leitura).

Talvez esta onisciência faça com que o homem de bem não perca tempo checando as fontes do que compartilha nas redes sociais. Impetuoso, propaga qualquer informação que reflita seu modo de pensar, por mais que se trate de um meme anônimo, ou de um link totalmente desconhecido.

O homem de bem também é um justiceiro, o que leva àquela que talvez seja a mais clássica frase deste pacato cidadão: “Bandido bom é bandido morto”,  desde que, obviamente, o “bandido” não pertença à sua família, ao seu círculo de amizades ou à sua classe social. Na mesma linha, enxergamos “homens de bem” entre aqueles que amarram jovens negros a postes ou que tentam linchá-los em meio à manifestação contra a “corrupção”, em plena praia de Copabacana, no Rio de Janeiro.

Por razões semelhantes, o homem de bem defende a pena de morte e a redução da maioridade penal. Acha que nossas sanções são muito brandas, que as medievais prisões tupiniquins são mais do que aceitáveis (“roubou e queria hotel cinco estrelas??”), e que é um absurdo que os seus impostos (os que ele não conseguiu sonegar) sejam utilizados no sustento de “vagabundo preso”.

Valoroso, o homem de bem defende a família tradicional (pai, mãe, iphone, filhos, cachorro, e hamster), e tem arrepios ao pensar na sua destruição pelo avanço dos direitos LGBT. Entretanto, diz não ser preconceituoso, já que “até tem amigo homossexual”, além de afirmar que respeita os gays, desde que cada um fique em seu canto.

O homem de bem também não é racista. Afinal, além de ter um ou dois amigos negros, ele trata educadamente os que servem seus pratos no restaurante, que lavam seu carro, e que limpam o seu prédio, pessoas que ele enxerga como trabalhadoras, de muito mérito, e que comprovam o absurdo das cotas raciais nos vestibulares e concursos, essa política esquerdista que gera “preconceito às avessas”.

Para o homem de bem uma das causas da ruína da sociedade atual é a mania das mulheres de quererem sair do seu lugar. De deixarem suas casas para trabalhar e competir como se fossem iguais aos homens. O homem debem acha que as mulheres deixaram de exercer adequadamente a maternidade, essa função que lhes foi divinamente destinada. Além disso, se querem direitos iguais, por que não abrem mão da licença-maternidade ou do tempo menor para aposentadoria? Como o homem de bem, empreendedor liberal, pode sustentar a sua “firma” com um monte de empregadas se afastando para gozar desses “privilégios”?

O homem de bem se diz cristão. Temente à Deus, tem na ponta da língua várias passagens da Bíblia, especialmente do Velho Testamento. Vai à missa ou ao culto, paga o dízimo em dia. Eventualmente questionado sobre a evidente incompatibilidade entre os ensinamentos de Cristo e as suas convicções e atitudes, tende a se enfurecer, reclamando de “tudo que está aí” e da falta de “valores” e de “moral” na sociedade atual, que está “desmoronando”.

Uma grande união de homens de bem pode ser observada na Câmara dos Deputados, na chamada bancada BBB – Bala, Boi e Bíblia, que reúne em um único caldo pautas armamentistas, policialescas, “cristãs”, e ruralistas. Em vão, fieis de todo o país ainda procuram nas escrituras os trechos em que Jesus defenda as chacinas praticadas por agentes da lei, a pena de morte, o armamento dos cidadãos “de bem” ou a concentração de terras cultiváveis nas mãos de poucos.

Ainda no setor político, temos alguns dos maiores heróis do homem de bem: congressistas que, apesar de chafurdarem na boçalidade, são vistos como “mitos”. Que com raivosa verborragia propagam o discurso raso do senso comum, com declarações quase sempre ignóbeis, e por vezes criminosas, encontrando eco pelas redes sociais e ruas do Brasil, graças a ele, sempre ele, o homem de bem.

Num contexto tão peculiar, fica a martelar a conhecida pergunta: quem nos protegerá da bondade dos bons?

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[1] O texto é dedicado apenas aos “homens” de bem, que de forma sábia e generosa se propõem a conduzir os destinos das mulheres deste país (como diria o homem de bem, “tem coisa que não é para mulher, certo?”)

Bruno Bortolucci Baghim é Defensor Público do Estado em São Paulo, membro do Núcleo de Combate à Discriminação, Racismo e Preconceito da Defensoria Pública, especialista em Ciências Criminais e Direito Constitucional, e fundador do portal Pessoal dos Direitos Humanos

Uma ideia sobre “Uma homenagem ao homem[1] de bem

  1. Hosting

                Esta nao e a relacao completa das qualidades que distinguem o homem de bem, mas quem quer que se esforce para possui-las, estara no caminho que conduz as demais.

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