Prazer: eu sou o vigésimo!

Por Benedito Cerezzo Pereira Filho

 
Reservou-se a data de 20 de novembro para se comemorar o dia da “consciência” negra. Já escrevemos em outro local [1] que, em verdade, o que se almeja é o alcance da “consciência” branca de que o negro precisa ser visto como um “igual”.
Para tanto, é obvio, que as oportunidades precisam, de fato, serem iguais e medidas estruturantes necessitam ser implementadas.
Não devia ser difícil perceber que a abolição da escravidão exigia, já àquela época, condições de sobrevivência do negro num mundo inteiramente preparado e pensado somente para brancos. Como ser livre sem condições de sobrevivência?
Naquele cenário, a liberdade concedida em 13 de maio de 1888, foi mais uma alforria aos brancos proprietários do que propriamente aos negros escravos. Tente imaginar o negro “livre” sem casa para morar, sem trabalho e sem terras para cultivar! É claro que ele continuou subjugado, escravizado e com o sentimento de inferioridade posto a toda prova, pois, apesar da “liberdade”, tinha que mendigar pela sobrevivência e se submeter as regras e vontade definida e impostas pela sociedade branca.
Essa luta diária, que persiste até os dias atuais, não é tão longínqua assim, pois, são apenas 130 anos desde o célebre 13 de maio a 20 de novembro de 2018. Esse interstício de tempo para a história não significa quase nada. Assim, sem ser percebido pelos (ím)pares, os negros até hoje sofrem todo tipo de preconceito e desrespeito enquanto sujeitos de direito.
A invisibilidade do negro só é quebrada ao se deparar com a famigerada atitude ou sujeito suspeito. De 19 de novembro de 2009 a 25 de setembro de 2018, fiz parte da percentagem de “2,2 por cento dos professores da USP que se autodeclararam pretos ou pardos”[2]. Aliás, no quadro de professores do Curso de Direito da USP, Faculdade de Direito de Ribeirão Preto, eu era o único professor negro.

Como resido em Brasília desde janeiro de 2008, viajava todo final de semana da Capital Federal para Ribeirão Preto e vice e versa. No aeroporto Leite Lopes, principalmente, inúmeras vezes eu era parado para a tal revista pormenorizada. A justificativa era de que a cada 20 (vinte) passageiros, o vigésimo é escolhido para se submeter a referida revista. Acontece que eu sempre, coincidentemente, era o vigésimo. Já percebia pela movimentação dos funcionários responsável pelo “raio-x” que seria o vigésimo. Alias, quem é negro, percebe um preconceito no olhar, no toque e, principalmente, na insensibilidade alheia. A dor é “qualificada” ao percebermos essas (não)atitudes nas pessoas mais próximas.

Quando ousava questionar o porquê de novamente ser revistado, ouvia de pronto: “se o senhor preferir chamaremos a polícia federal”. A situação chegou a tal ponto que ao me aproximar já dizia aos funcionários: – boa-tarde, muito prazer, eu sou o vigésimo.
Convivi com essa situação por 09 anos e tudo passou despercebido por todos, menos por mim. Observei, inclusive, que o LOGO da FDRP/USP, contém como marca um ramo de café e outro de cana, dois símbolos representativos do Poder e da existência da escravidão.

a.logo.usp

Faço esse relato para demonstrar o quanto é difícil ser negro no Brasil. “Vida de nego é difícil” já dizia o cantor. Escrevo não no dia 20, mas, no dia 21 de novembro para homenagear o dia da “consciência branca”, cuja data é comemorada na cidade de Sertãozinho, distante 22 km de Ribeirão Preto.
A Câmara de Vereadores daquela cidade entendeu que por questão de igualdade deveria existir, também, uma homenagem à consciência branca [3]. A justificativa do Presidente da Câmara Municipal foi de que “se tem o dia dos negros também deveria existir dos brancos, porque existe preconceito contra branco também” e, assim, não teve dúvida:

a.sertaozinho
Fica torcida para que a “consciência branca” tenha consciência, todos os dias e instantes, de que a “consciência negra” só quer dignidade, cidadania, apesar do Chefe do Executivo Federal ter afirmado que os brancos não devem nada aos negros. Por fim, repiso o alerta: “só ter piedade de nós não vale a pena”.

Benedito Cerezzo Pereira Filho é Doutor e Mestre em Direito pela Universidade Federal do Paraná – UFPR, Professor de Direito Processual Civil na graduação e pós-graduação da UnB – Universidade de Brasília e advogado em Brasília no Escritório MARCELO LEAL ADVOGADOS ASSOCIADOS.

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[1] PEREIRA FILHO, Benedito Cerezzo. Há consciência branca? Publicado no Jornal do Brasil. Acesso: https://www.jb.com.br/index.php?id=/acervo/materia.php&cd_matia=54568&dinamico=1&preview=1Texto

[2] htpps://jornal.usp.br/universidade de São Paulo

[3] http://g1.globo.com/sp/ribeiraopreto-franca/notícia/2014/camara-decreta-ponto-facultativo-pela-consciencia-branca-em sertaozinho.html

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