Beija-Flor, suas rosas de sangue, e os invisíveis de sempre

Por Bruno Bortolucci Baghim,

Poucos dias antes do desfile das escolas de samba no carnaval do Rio de Janeiro veio à tona a notícia de que a Beija-Flor, uma de suas maiores campeãs, recebeu R$10 milhões do ditador da Guiné Equatorial, um dos mais sangrentos do mundo.

Há cerca de 35 anos no poder do pequeno e miserável país africano, Teodoro Obiang é conhecido por sua brutalidade. Tendo assumido a presidência em 1979 após mandar fuzilar o tio, o anterior ditador Francisco Macías, Obiang governa solitário e por decreto. Seu frágil povo vive sob constante temor, e acredita na lenda de que ele é descendente de canibais. Além disso, há notícia de que a rádio estatal da Guiné Equatorial certa vez proclamou que Obiang seria um deus, e que justamente por isso poderia matar quem quisesse sem risco de ir para o inferno.  Além destas características sobrenaturais, o ditador também não faz feio no plano material: a Forbes o aponta como o 8º governante mais rico do planeta. Entretanto, no mesmo quesito, seu pequeno recanto ocupa uma triste 136ª posição de um total de 187 países. A explicação: a Guiné Equatorial é o 3º maior produtor de petróleo do continente africano, o que alimenta a fortuna pessoal de seu governante, sem qualquer benefício aos 700.000 habitantes do país. Bilionário e sentado sobre poços de petróleo, Obiang tem livre trânsito entre os governantes de grandes potências – nada como alguns contratos petrolíferos para fazer o mundo “relevar” detalhes da vida do ditador.

Tendo recebido o maior patrocínio já pago a uma escola de samba no Rio de Janeiro, a Beija-Flor tratou de homenagear seu mecenas, com o enredo “Um griô conta a História: um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial” – despontar do melancólico país ou de seu ditador? –  trazendo curiosas menções à “liberdade” e “igualdade” na canção, palavras que certamente não encontram espaço no dia-a-dia da sofrida população daquela pequena porção de terra. E aparentemente a escola agiu com maestria, já que se sagrou campeã do carnaval carioca em 2015 (só lembrando que a Beija-Flor não tem problemas em homenagear ditaduras, já que mais de uma vez exaltou nossos governos militares em seus enredos durante os anos de chumbo).

Muitos dirão que o atual patrocínio ditatorial não tem tanta relevância, visto que grande parte das escolas cariocas sobreviveria à custa do dinheiro de organizações criminosas e contraventores. Argumento compreensível, mas que não livra a Beija-Flor. A sujeira de determinado dinheiro não limpa a de outro, mas só torna o conjunto ainda mais sujo. No caso, o dinheiro do ditador Obiang vem maculado não só com o sangue do povo guinéu-equatoriano, mas também com o de milhões de africanos que há tempos agonizam sozinhos, esquecidos pelo restante do mundo.

Como não falar dos milhões de africanos por séculos retirados de seu continente para trabalharem como escravos nas colônias das Américas? Ou então da colonização do próprio continente africano por potências europeias, sugando as riquezas naturais de povos indefesos, culminando com uma desastrosa divisão de territórios que colocou etnias historicamente inimigas dentro dos mesmos países? Sim, pois durante o processo de descolonização da África iniciado após o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945, a partilha dos territórios foi realizada pelos países europeus, ignorando as diversas etnias existentes, levando à separação de povos com afinidades histórico-culturais e à trágica reunião de grupos rivais, gerando uma série de guerras civis que se desenrolam até os dias atuais.

Mas sem problemas. Estamos falando da África, continente de pessoas pretas e pobres, onde a morte é um personagem cotidiano, e não gera reações internacionais. Minto? Infelizmente não, e os exemplos saltam aos olhos.

Ainda que o continente africano tenha registrado milhares de mortes pelo ebola em 2014, a comunidade internacional somente se movimentou efetivamente após o contágio de uns poucos europeus e norte-americanos.

Em janeiro deste ano de 2015, exatamente na mesma semana em que terroristas atacavam a sede do jornal francês Charlie Hebdo em Paris, em que 12 pessoas morreram, na Nigéria era perpetrado verdadeiro massacre por extremistas islâmicos do Boko Haram em face da população civil, gerando mais de 2.000 mortos[1]. De forma previsível, a repercussão do ataque ocorrido na França foi mundial, gerando protestos que contaram inclusive com a participação de poderosos chefes de Estado. O massacre nigeriano? Solenemente ignorado.

Como se vê, quando se fala em África, não há qualquer comoção. O mundo parece conformado com as guerras, a miséria, a doença, a fome e a morte que rondam por lá. Ao africano, resta sofrer e morrer solitariamente. Aquele que outrora foi o berço da Humanidade, hoje é seu túmulo.

Tudo isso nos ajuda a entender a indiferença das pessoas e da própria mídia tradicional em relação não só ao patrocínio recebido pela Beija-Flor, como ao fato de ela ter exaltado a Guiné Equatorial em seu samba-enredo a pedido do ditador Obiang. Não assisti aos desfiles, mas as reportagens que li sobre o assunto afirmam não ter havido qualquer menção – e muito menos crítica – por parte da Rede Globo a tal fato durante a transmissão.

Quanto ao carnaval, não há mais nada a fazer. O povo africano continua fadado a morrer com suas tragédias, invisível ao restante do mundo. Teodoro Obiang continua a enriquecer às custas do sofrimento dos seus conterrâneos, podendo agora acrescentar ao seu rol de excentricidades a vitória obtida no Carnaval 2015.

Seguimos nos superando, e sem qualquer vergonha. Afagando ditadores e estapeando miseráveis. Mas tudo bem. São africanos.

 

Bruno Bortolucci Baghim é Defensor Público do Estado em São Paulo, membro do Núcleo de Combate à Discriminação, Racismo e Preconceito da Defensoria Pública, especialista em Ciências Criminais e Direito Constitucional.

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[1]http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/39113/anistia+internacional+ataque+de+boko+haram+teria+matado+2+mil+pessoas+na+nigeria.shtml

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