Quando nos esqueceremos de Suzane?

Por Bruno Bortolucci Baghim,

Hoje resolvi me arriscar.

Na noite de quarta-feira, 25/02/2015, o apresentador Gugu Liberato estreou novo programa na Rede Record de televisão com uma atração bombástica para os peculiares parâmetros nacionais: entrevista exclusiva com Suzane von Richtofen, talvez a mais famosa – e odiada – condenada do Brasil na atualidade. Ainda não tive tempo de assistir à entrevista, mas li algumas reportagens que a resumiram, e me parece que a moça mostrou-se disposta a esclarecer para o telespectador vários pontos referentes ao homicídio praticado contra seus pais, além de outros detalhes de sua vida. Ao que tudo indica, sem que tivesse qualquer obrigação neste sentido, Suzane se abriu.

Não tecerei qualquer comentário sobre a entrevista (que ainda não assisti), sobre as declarações de Suzane, ou sobre o seu grau de responsabilidade pela morte dos pais. Não. Preferi escrever sobre uma coisa que me incomoda, e imagino – e espero – que também incomode outras pessoas: Suzane não conseguiu ser esquecida nos últimos 12 anos.

Muito embora centenas de milhares de outros homicídios tenham sido praticados no Brasil nesse mesmo período – incontáveis deles muito mais graves e brutais do que os de Suzane – ainda a mantemos como uma espécie de ícone. Sem a conhecermos, afirmamos em qualquer roda de amigos que ela é “fria”, “calculista”, ou então que ela é um “monstro”, e que ainda por cima “tentou roubar a herança do irmão caçula”. Nós a odiamos sem ter qualquer relação com ela ou com seus falecidos pais. Vibramos com sua condenação e, não contentes, acompanhamos cada ano de sua longa pena, sempre torcendo por mais e mais punição. Sem nenhuma legitimidade, a escolhemos como símbolo de uma suposta maldade a ser combatida.

Começo pelos comentários de uma notícia publicada no Portal UOL[1] sobre a entrevista de Suzane à Rede Record. A raiva – claramente inexplicável – da maioria das mensagens representa com louvor o pior que nossa Internet pode produzir (aqui uma confissão: embora vozes sábias sempre me digam que nada pode ser mais estúpido do que perder tempo com leitura de comentários de notícias que tenham alguma relação com a criminalidade ou com política, não consigo deixar de fazê-lo, especialmente após notar que passado algum tempo torna-se possível apreciar o lado cômico dessa tragédia diária). Cito alguns dos comentários, no exato português em que foram escritos, apenas com alguns grifos meus: a record acha lindo levar esse povo na tv. pra que dar ibope pra essa bandida???”, ou então “Não dá para perdoá-lá. Quem mataria o pai e a mãe a pauladas, ainda mais de caso pensado, planejado? Que ser bestial! É claro que deve estar arrependida, mas isso não fará seus pais reviverem”. Claro, não pode faltar o homicida institucional: “Pena de morte para HOMICÍDAS, CORRUPTOS E ESTUPRO, devem ser aplicados aqui no BRASIL até 2025. Já há parecer favorável na câmara.” E sempre há o indignado com a Presidenta: “NUM BRASIL ONDE A PRESIDENTA FAZ APELO PARA NAO FUZILAREM TRAFICANTES DE DROGAS, ASSASSINA DAR ENTREVISTA É NORMAL?”. Temos também o sujeito que acha que Suzane é uma mera coisa: “Quem assistiu esse programa ontem, essa entrevista deveria ser multado. Que coisa que tem o ser humano de ficar dando ibope pra uma coisa dessas.. daqui a pouca ela vira referencia e ídolo para uma juventude sem rumo e sem função”. E por fim, um frustrado revoltado com a “impunidade” no caso Suzane: “a nossa lei feita pelo homem é só para favorecer quem pode pagar ela deveria ser julgada na Indonésia e não no brasil.”  Não li todos os comentários. Quem tiver paciência, curiosidade, ou estômago, o link está nas referências ao final do texto.

Como se vê, temos raiva de Suzane e passados cerca de 12 anos de prisão já cumpridos pela moça, a ela não é permitido o esquecimento. Exemplos: Indeferido pedido de progressão de regime, lá está a mídia[2]. Mais alguns anos, Suzane sofre uma queda dentro do presídio, sendo hospitalizada, e novamente é notícia[3]. A vida segue, até que mais uma vez a mídia informa: Suzane se casa com outra detenta condenada por sequestro (“Além de assassina fria, é lésbica?” bradaram muitos)[4]. Depois dessa, ela finalmente ganha o direito ao regime semiaberto, mas pede para permanecer no fechado, o que obviamente é noticiado[5]. E agora, a mais recente e marcante aparição de Suzane na mídia, na citada entrevista concedida a Gugu Liberato.

Claro: em todas as notícias, os agradáveis comentários de sempre, lavrados por nosso personagem tragicômico predileto: ele, sempre ele, o “homem de bem”, justiceiro, internauta, e implacável por natureza.

Para azar de Suzane, parece que nunca a esqueceremos. E o que é o pior: nunca permitiremos que ela possa seguir com sua vida. Condenada a 39 anos de prisão, já cumpriu cerca de 12 anos, em regime fechado. Já se trata de um tempo inimaginável de privação de liberdade – e há muito ainda por vir -, sendo possível afirmar que a esmagadora maioria dos presos hoje no Brasil não ficarão tantos anos custodiados por um mesmo crime. Ou seja: Suzane foi e está sendo punida com extrema severidade. O que mais desejamos? Por que nos incomodamos pelo fato de ela se casar com uma companheira de presídio? Por que nos enraivecemos por algum dia ela vir a sair da prisão? O que nos leva a direcionar tanto ódio a uma pessoa que sequer conhecemos? Por mais brutal que tenha sido o delito que a levou à prisão, ela sofreu a sua dura punição, nos termos da lei. E além da liberdade, Suzane perdeu todo o resto – família, dinheiro, amigos, e o pior: sua intimidade. Reviramos sua vida, e julgamos não só o seu delito como também a sua personalidade, sem qualquer conhecimento de causa. “Psicopata”, “doente”, “monstro”. Uma vez em liberdade, será permitido à Suzane o simples caminhar pelas ruas da capital paulista? O que mais queremos?

A esta altura os senhores já devem ter entendido o motivo da minha afirmação no início do texto, de que eu estaria me arriscando. Afinal, defender Suzane von Richtofen não parece ser a coisa mais sábia nos dias atuais. É pedir para atrair a ira e a incompreensão alheias. É como colocar-se entre atiradores e seu alvo. Mas entendo como necessário, pois a postura impiedosa que adotamos em relação à Suzane reflete não só a nossa crueldade como também um grande atraso enquanto sociedade. E isso precisa ser enfrentado.

Ela errou, e está pagando muito por isso. E acaba aí. Já temos nossos próprios fantasmas e pecados com que lidar. Deixemos Suzane com os dela. Que o esquecimento possa lhe trazer paz.

 

Bruno Bortolucci Baghim é Defensor Público do Estado em São Paulo, membro do Núcleo de Combate à Discriminação, Racismo e Preconceito da Defensoria Pública, especialista em Ciências Criminais e Direito Constitucional.

Referências:

[1]http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/02/25/apos-sete-anos-suzane-von-richthofen-concede-entrevista-tenho-saudade-do-meu-irmao.htm

 

[2]http://ultimainstancia.uol.com.br/conteudo/noticias/61717/stj+nega+habeas+corpus+a+suzane+von+richthofen.shtml

 

[3]http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/07/1489092-suzane-von-richthofen-passa-por-exames-em-hospital-apos-cair-em-cela.shtml

 

[4]http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/10/1539383-suzane-ritchofen-se-casa-com-sequestradora-em-presidio-de-sp.shtml

 

[5]http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,suzane-von-richthofen-recusa-semiaberto-e-diz-que-quer-ficar-na-prisao,1546375

2 ideias sobre “Quando nos esqueceremos de Suzane?

  1. Samuel Antonio Alves

    São nesses casos de violência exacerbada, fortemente divulgados pela mídia, que nós conseguimos fazer um exercício de compaixão que nos mostrará que agora somos da turma dos direitos humanos. Muito orgulho de hoje conseguir olhar assim para um assassino, estuprador, latrocida, nunca apoiando suas condutas, mas mantendo o controle emocional para não desejar, tampouco permitir, que um justiçamento, um castigo, um linchamento aconteça.

    Finalizo com o artigo que me fez ser favorável aos diretos humanos.
    “Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante”

    Responder
  2. Daniel Melo

    Realmente é um risco, entretanto muito bem fundamentado o teu post e concordo com ele. Se olharmos com mais atenção veremos que casos iguais, ou piores, não tiveram toda esta cobertura que, infelizmente, levou à exacerbação exagerada, ao meu ver, do nosso “ódio” contra esta pessoa e nos esquecemos que vivemos em uma sociedade com leis e sanções. Até podemos dizer que algumas coisas tem que ser corrigidas, mas de resto existe um tecido legal à nos dar a garantia da civilidade.

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