ENEM 2015 e a paranoia de sempre

Por Bruno Bortolucci Baghim

O ENEM 2015 foi o assunto do fim de semana, e continua a render frutos nesta segunda-feira.

Revoltados, diversos expoentes do conservadorismo brasileiro vieram publicamente condenar o teor das questões apresentadas na prova[1], que representariam clara tentativa de “doutrinação ideológica” por parte do Governo Federal.

O Deputado Federal Jair Bolsonaro postou em seu perfil no Facebook que “O sonho petista em querer nos transformar em idiotas materializa-se em várias questões do ENEM (Exame Nacional do Ensino MARXISTA)”, acrescentando ainda que “Essa canalhada deverá ser extirpada do poder em 2018 com o VOTO IMPRESSO”, ou até mesmo antes “da mesma forma como o Congresso, em 02 de abril de 1964, cassou o comunista João Goulart” (ou seja, mediante golpe militar, simples assim).

Na mesma esteira, o parceiro de “luta” de Bolsonaro, Deputado Federal Marcos Feliciano, ao se referir à presença do texto da filósofa Simone de Beauvoir na prova disse que “a primeira pergunta apresentada na prova do Enen (sic) deste sábado versa sobre um assunto em que em todas as esferas legislativas de nosso país foi vencida e jogada no lixo, a teoria de gênero, algo que sutilmente tentaram nos incutir de forma sorrateira e rechaçada pelos parlamentares eleitos democraticamente pela maioria da população e que todas as pesquisas apontam como maioria de fé Cristã e conservadora” (aqui evidenciando a já conhecida – e promíscua – fusão entre o mandato parlamentar e a religião do nobre Deputado).

Igualmente, o ex-blogueiro da Veja, Rodrigo Constantino, famoso “liberal sem medo da polêmica”,  revoltou-se contra tamanho acinte, e escreveu que a “prova do Enem foi, uma vez mais, um show bizarro de doutrinação ideológica, conforme muitos têm relatado. Uma das questões estava carregada de feminismo tosco, usando Simone de Beauvoir para extrair dos alunos uma visão de mundo absurda de que ‘ninguém nasce mulher’, de que gênero é apenas uma ‘construção social’. Essa turma tem ido longe demais em suas viagens nos departamentos de humanas das universidades.”

E com essas “celebridades” do conservadorismo, vieram seus milhões de seguidores, igualmente revoltados, seja com o teor das questões apresentadas na prova objetiva, seja com o tema proposto para a redação (“A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”). Em linhas gerais, os comentários e as críticas profundas de sempre espalharam-se pelas redes, indo desde os clássicos “esquerdopatas”, “feminazis”, “ditadura gaysista”, até alguns mais elaborados, como os que acham que Bolsonaro e Feliciano defendem valores para a “posteridade” (diversamente do conteúdo da prova), e outros revoltados por terem que pensar como “bostas” para responder às perguntas.

Ousamos discordar. Diversamente do que se alardeia, a prova não foi um instrumento de doutrinação ideológica, mas tão somente um exame que exigiu dos alunos amplo e crítico conhecimento sobre temas atuais e caros não só ao brasileiro como à toda Humanidade. A prova abordou, dentre outros assuntos, a cautela quanto aos transgênicos, a proteção ao meio ambiente, a crise hídrica, a alteridade, as violações perpetradas pelo Estado em regimes ditatoriais, questões ligadas à escravidão e à postura das colônias africanas em relação às suas metrópoles durante a Segunda Guerra Mundial. Também se falou de forma crítica sobre a globalização (algo imprescindível ao nosso ver) e sobre a crise financeira mundial, dentre outros temas, todos essenciais à formação de um ser humano minimamente capaz de questionar o senso comum quando este se mostrar estúpido.

Não se visualiza, portanto, qualquer razoabilidade nas críticas tecidas. De certa forma, os examinadores devem se sentir lisonjeados pelo fato de figuras como Bolsonaro, Feliciano e Constantino revoltarem-se com o teor das questões. O primeiro, empurrado por seus milhões de seguidores, afirma impunemente[2] que “o erro da ditadura foi torturar e não matar”, ou então que “Seria incapaz de amar um filho homossexual. Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí”. Não contente, já disse que “mulher deve ganhar salário menor porque engravida”, dentre outras pérolas. Marco Feliciano é conhecido por empreender uma cruzada contra a comunidade LGBT, já tendo tentado levar à cabo um infame projeto de “cura gay”, além de notoriamente misturar seus dogmas religiosos (é pastor evangélico) com seus deveres de parlamentar, função que deveria exercer em prol de todos e não só de se seus eleitores. No que tange a Rodrigo Constantino, o blogueiro vê conspiração “comunista” em cada sombra, até mesmo em jogos de videogame [3], o que só lhe traz mais “credibilidade”. Como se vê, triste seria se tais ícones do atraso elogiassem a prova.

Mas talvez mais grave – e triste – tenha sido a revolta em relação ao tema proposto para a redação do ENEM, “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, assunto atual em um país em que milhares de mulheres ainda são mortas anualmente por seus companheiros. E essencial, especialmente quando se nota que a sociedade brasileira ainda é influenciada pela cultura patriarcal que aqui explicitamente vigorou por quase 500 anos, com a mulher figurando como vítima constante de toda sorte de violências e abusos, dentro e fora de seu lar. Basta lembrar que o já citado deputado que afirmou que mulher deve ganhar salário menor porque engravida também disse a uma colega que não a estupraria por ela não merecer[4], sendo aplaudido por seus seguidores. Isso demonstra o quão doente ainda é a sociedade brasileira, sendo crucial para um futuro menos hostil que os jovens enfrentem com seriedade a questão da violência de gênero, ainda que de forma embrionária, como numa prova para ingresso no ensino superior.

Também é alarmante notar que muitos atribuíram a pecha de “esquerdista” ao tema da prova dissertativa, como se o combate à violência contra a mulher fosse uma bandeira ideológica, e não um imperativo. Como se não houvesse em âmbito internacional tratados que asseguram o combate à violência e à discriminação contra as mulheres. Como se o próprio Brasil não tivesse sido internacionalmente condenado por sua omissão na defesa das mulheres vítimas de violência, o que culminaria na edição da Lei 11.340/2.006, popularmente conhecida como Lei Maria da Penha. Aqui refazemos a pergunta que viralizou nas redes sociais: “Se combater violência contra a mulher é coisa de ‘esquerda’, qual o papel que resta à ‘direita’?” Deixarão Bolsonaro responder?

Andou bem o MEC. Afinal, a quem interessa a formação de jovens desprovidos de crítica, alheios aos problemas mais graves do Brasil e do mundo? Que enxerguem o mundo pelas palavras de pessoas que propagam o ódio, o racismo, a homofobia, o machismo e a xenofobia ? 

Vivemos um momento histórico complexo, em que pessoas vão às ruas, livrarias, restaurantes, e até a hospitais, bradar com orgulho que são “coxinhas”, agindo como cães raivosos contra pessoas de vertente política diversa. Em que a bandeira do combate à corrupção – seletivo, frise-se – tem legitimado comportamentos inimagináveis há até pouco tempo atrás. É preciso frear essa onda de ódio e ignorância. Independentemente do viés partidário ou ideológico, é fundamental que os jovens tenham acesso à educação de qualidade, e acima de tudo, ao pensamento crítico. Que enfrentem com racionalidade e tolerância os graves problemas brasileiros e mundiais, promovendo a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, objetivo primeiro da nossa República, insculpido no artigo 3º, inciso I, da Constituição Federal.

Quem discorda, pode livremente criar seus filhos no obscurantismo, ensinando-os sobre a “família tradicional”, a subserviência da mulher, os perigos do comunismo (até no videogame!), da ditadura gaysista, e por aí vai. A democracia permite.

 

Bruno Bortolucci Baghim é Defensor Público do Estado em São Paulo, membro do Núcleo de Combate à Discriminação, Racismo e Preconceito da Defensoria Pública, especialista em Ciências Criminais e Direito Constitucional, e idealizador do Pessoal dos Direitos Humanos

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Referências:

[1] http://www.revistaforum.com.br/blog/2015/10/bolsonaro-feliciano-e-constantino-criticam-questao-sobre-beauvoir-no-enem/

[2] http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/08/as-10-frases-mais-polemicas-de-jair-bolsonaro.html

[3] http://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/ex-blogueiro-da-veja-enlouquece-e-diz-que-game-faz-doutrinacao-ideologica/

[4] http://extra.globo.com/noticias/brasil/jair-bolsonaro-repete-insulto-deputada-maria-do-rosario-so-nao-te-estupro-porque-voce-nao-merece-14781338.html

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