Um pouco sobre nós, bandidos sádicos e hipócritas.

Por Bruno Bortolucci Baghim

Na última semana recebi, em mais de um dos meus grupos de amigos daquele famoso aplicativo de comunicação via celular, um vídeo em que dois jovens presos (aparentemente com menos de 18 anos) eram obrigados por policiais a se agredirem mutuamente. Como obviamente não o faziam com a violência desejada pelos agentes da “lei”, estes desferiam golpes brutais nos dois jovens. Também já recebi vídeo em que um preso era empalado por outros detentos, além de outros que mostravam execuções de supostos “bandidos” em locais ermos. Isso sem falar das centenas de fotos de supostos mortos pela polícia. Tais arquivos de mídia só não chocam mais do que o teor dos comentários praticamente unânimes que a eles se seguem: uma doentia idolatria pelos pseudojusticeiros aliada ao profundo êxtase pelo sofrimento imposto aos “bandidos”. Minto? É só ler os comentários de qualquer notícia relacionada à criminalidade em portais de grande acesso – e se conseguir fazê-lo sem sentir um amargor na garganta, talvez seja a hora de você assumir sua parcela de culpa pelo atual momento de atraso de nosso país.

Infelizmente, tudo indica que nossa sociedade padece de males graves, aparentemente sem cura, e muito mais nocivos do que a própria “criminalidade” que assola o “homem de bem” – eu sei, ele está sempre por aqui, mas não consigo deixar de homenagear nosso ícone cômico.

Primeiro, nossa sociedade admira – e encoraja – pessoas que torturam e matam a sangue frio. Que agridem covardemente seres humanos desarmados e já subjugados. Que praticam crimes muito mais graves do que o dos próprios “bandidos”, esses seres tão odiados. É desesperador imaginar que vivemos em uma sociedade que aplaude uma pessoa que efetua disparos de arma de fogo em outra já completamente indefesa, só pelo fato de o alvo ser um suposto criminoso, indiferente ao fato de que o autor dos tiros está praticando homicídio qualificado, crime hediondo com pena que varia de 12 a 30 anos de reclusão. Que a tortura, praticada por agentes da “lei” de forma recorrente pelo Brasil afora, é considerada um dos delitos mais graves pela nossa ordem constitucional, equiparado a hediondo, sendo que o país, inclusive, é signatário da Convenção Internacional contra a Tortura. Ou seja: aceitamos e encorajamos condutas muito mais graves e violentas do que os crimes mais corriqueiramente praticados (furto, roubo e tráfico de drogas, por exemplo), e não nos damos conta disso. Exemplo recente desta distorção pode ser constatado no fato de o Brasil ter erigido à condição de herói nacional o personagem Capitão Nascimento, do filme “Tropa de Elite”, que executa e tortura diversas pessoas, quando o seu roteirista e ex-oficial do BOPE, Rodrigo Pimentel [1], e o intérprete do personagem, o ator Wagner Moura [2], enxergam justamente o contrário. Não há espaço para meias palavras: temos assassinos e torturadores como heróis.

Em segundo lugar, nossa sociedade tem se mostrado sádica. Não bastando exaltar os “heróis” acima citados, ainda se regozija com o sofrimento alheio. Vibra com linchamentos, com chacinas, com presídios superlotados (“Vagabundo queria o quê?? Hotel cinco estrelas??”). Aplaudem quando manifestações são rechaçadas de forma violenta por tropas de choque ou quando lares de centenas de famílias são simplesmente destruídos em desocupações ordenadas pela Justiça. Chovem balas de borracha e bombas contra cidadãos comuns, atacados covardemente por um Estado que deveria protegê-los, mas que passados quase 30 anos de uma ordem constitucional democrática, ainda se porta como se vivêssemos tempos de exceção, semelhantes aos anos de chumbo que se seguiram ao golpe militar de 1964. E como tudo sempre pode piorar, essa postura agressiva, que coloca o cidadão como inimigo, tem grande apoio da sociedade brasileira.

Por fim, padecemos de hipocrisia. O “bandido” é o inimigo, aquele criminoso que só é bom se estiver morto. Mas como definir quem é criminoso? Não é aquele que viola a lei penal? Ora, então é aquele sujeito que, tendo ingerido algumas latas de cerveja em um churrasco de família ou em uma balada, conduz seu veículo automotor pelas ruas (artigo 306 do Código de Trânsito Brasileiro). No mesmo barco estão aqueles que fazem uso de um atestado médico falso para justificar ausência ao trabalho ou de carteiras de estudante igualmente falsas para pagar “meia entrada” em eventos culturais (artigo 304 do Código Penal). E quem sonega tributos (artigo 1º da Lei nº 4729/1965) ou contribuições previdenciárias (artigo 337-A do Código Penal)? Também não nos esqueçamos de quem pratica injúria racial (artigo 140, §3º, do Código Penal) ou o próprio racismo (artigos 3º ao 14 da Lei nº 7716/1989). E o que falar daquele jovem estudante universitário, o melhor filho de nossa melhor casta, que furta placas de trânsito (artigo 155 do Código Penal)? Como se vê, temos – e somos – muitos “bandidos” à solta, com o detalhe de que alguns são piores do que os outros, pois além de praticarem delitos, carregam consigo a hipocrisia. Estes, os hipócritas, distorcem os conceitos, tendo uma peculiar noção do que é “justiça” e de quem seria o “bandido”, incapazes de qualquer autocrítica. Pregam a morte de seus semelhantes como vingança pelos seus crimes, sem notar que a coerência os obrigaria a colocar uma arma nas próprias cabeças e a puxar o gatilho… Ah, mas nesse caso não é bem assim, certo? Entendi. Claro, o bandido é sempre o outro, ou melhor, quem eu quero que o seja – menos eu. Como diria Confúcio, sempre sábio, “foge por um instante do homem irado, mas foge sempre do hipócrita”.

Eis a realidade que se apresenta no dia-a-dia do brasileiro. Atraso, discursos de ódio, combate às minorias, intolerância e populismo penal. Vemos o sucesso do jornalismo policial barato e sensacionalista, violador de direitos basilares. Acompanhamos a ascensão de “jornalistas” ignóbeis que usam o alcance de suas bancadas para incentivar a violação aos Direitos Humanos. E a despeito de o gigante ter “acordado” nas manifestações de junho de 2013, em 2014 ele conseguiu a proeza de eleger a Câmara dos Deputados mais conservadora desde 1964[3], sendo que alguns dos parlamentares mais votados têm pautas que, para além do mero conservadorismo, podem ser consideradas criminosas.

Diante de um panorama tão sombrio, de atraso e sério risco de perda das conquistas civilizatórias até aqui obtidas, mostra-se ainda mais crucial o empenho daqueles que defendem os Direitos Humanos, o Estado Democrático e seus princípios mais basilares. Embora não haja a ilusão de que a população brasileira possa se conscientizar de um dia para o outro, não resta outra saída senão a luta.

 

 

NOTAS:

[1] Trecho de entrevista de Rodrigo Pimentel ao jornal Folha de São Paulo: Quando eles assistirem a esse filme de novo, daqui a 20 anos, quando o país tiver mais segurança, menos corrupção, eles vão entender que o Nascimento não é herói. [...] Porque um herói não executa e não tortura. Quando o país estiver melhor, eles vão entender que o capitão Nascimento é uma pessoa com problemas.” Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/folhatee/fm2210200705.htm

[2] Trecho de artigo de Wagner Moura: “Mas também fico preocupado quando vejo o capitão Nascimento ser tratado como herói. Fico pensando como reagiria ao filme uma platéia sueca. Não creio que pensariam naqueles policiais torturadores como heróis, assim como muita gente que vê o filme aqui também não pensa. Talvez os suecos não precisem de heróis. Talvez, aí sim uma tragédia, fascistas estejamos nos tornando nós, brasileiros, cidadãos carentes de uma política de segurança pública qualquer, que vemos naqueles policiais honestos, bem treinados, mas desrespeitadores dos direitos humanos mais elementares, a solução para o caos em que estamos metidos.” Fonte: http://oglobo.globo.com/cultura/em-artigo-ao-globo-wagner-moura-diz-que-tropa-de-elite-nao-fascista-4152206.

[3]http://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,congresso-eleito-e-o-mais-conservador-desde-1964-afirma-diap,1572528

14 ideias sobre “Um pouco sobre nós, bandidos sádicos e hipócritas.

    1. Bruno Bortolucci Baghim Autor do post

      Boa tarde, Valmor. Obrigado pela participação.

      Sim, “bandido” bom é aquele que responde a um processo regularmente instaurado, com todas as chances de defesa, e com respeito a todas garantias do devido processo legal, e que só seja preso durante o processo se realmente presentes os requisitos para tanto, e que, uma vez condenado à prisão, que a cumpra de forma digna. São direitos, e não só dele. São meus direitos e seus direitos também.

      Abraços

      Responder
      1. Valmor Junior

        O mesmo direito de defesa de quem toma um tiro de um assaltante? Esse discurso é lindo, mas e na prática? É isso que acontece? Assaltante vai preso? Assassino vai preso? Quando vai preso fica tempo suficiente? São pessoas que escolhem matar, torturar, humilhar, negar direitos humanos a pessoas inocentes, e vocês lutam pelos direitos deles, criticando a sociedade que se vê abandonada e encurralada, que vê nessas situações de auto-defesa a única saída pra acabar com criminosos em série, estupradores, gente que vai e volta da cadeia e continua prejudicando inocentes. Os direitos humanos de vítimas de bandidos lhes são negados e ninguém fala disso, por que são tão tolerantes com quem escolhe negar os direitos de outros seres humanos?

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      2. Valmor Junior

        Ou melhor, reformulando, por que são tão tolerantes com quem escolhe negar os direitos de outros seres humanos por simples opção e crueldade (como assassinos que torturam e matam inocenes) e julgam com tanta veemência quem o faz por desespero (cidadãos comuns que já não aguentam mais a violência a que são expostos)?

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        1. Bruno Bortolucci Baghim Autor do post

          Valmor, compreendo suas colocações. As ouço diariamente, de um sem número de pessoas, mas a premissa é equivocada: direitos humanos não se excluem. A defesa de direitos relativos aos acusados de delitos não exclui a defesa dos direitos das vítimas. Além disso, os Direitos Humanos têm outra série de vertentes, não só a criminal. Caso queira se aprofundar um pouco mais sobre o que defendemos, indico-lhe o texto abaixo, como sugestão:

          https://medium.com/opinioes-em-portugues/ninguem-e-a-favor-de-bandidos-e-voce-que-nao-entendeu-nada-a7ba54318515

          Abraços e seguimos à disposição

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          1. Valmor Junior

            Desculpa, mas teu texto é basicamente todo direcionado para os acontecimentos criminais que envolvem situações que na tua concepção ferem os direitos humanos. É muito fácil fazer parte da elite e olhar para o Brasil como um todo e dizer que deveríamos ser como a Suécia, o problema é que tu escreves atacando a sociedade e não o governo. O povo aceita essas situações que tu chama de barbárie por que não existe movimentação do governo para “transformar o Brasil na Suécia”, e é ao governo que tu deverias direcionar essa tua insatisfação, e não contra as pessoas, ainda mais ao ponto que tu chegas de comparar quem comete delitos, chamando-os de bandidos com aqueles que realmente consideramos bandidos e esperamos que sejam punidos, que são os que cometem crimes hediondos ou reincidem infinitamente em crimes menores.

  1. Thalita Oliveira

    Excelente texto, e uma verdade que muitos recusam-se a ver, o maior problema da sociedade brasileira (assim como muitas sociedades no mundo, não, não somos os únicos), é que a população se justifica no governo, quando ela á a maior responsável pelos problemas do país (não excluindo a culpa do governo também), não é que as pessoas não tenham outra opção, elas estão acomodadas nesta posição de que elas são as vitimas, e recusam-se a fazer diferente, não são todas é claro, todas as mudanças que foram realizadas no governo e na sociedade partem das pessoas que cansaram de se colocar como vitimas, e que sabem que a culpa é delas também, desde coisas simples como colocar o lixo no lugar certo, até a decisão de que um crime não deve ser pago com outro, ou então estamos fazendo isso por nada. As pessoas falam esse pessoal dos direitos humanos apenas aparecem quando se tratam de bandidos, e é a maior das mentiras, esse pessoal dos direitos humanos luta pelo direito de todos os humanos, e é primordial para a mudança profunda da sociedade, que ela compreenda que todos são humanos, e devem ser tratados como tal, independente de suas ações.

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    1. Bruno Bortolucci Baghim Autor do post

      Obrigado pelo comentário, Thalita. Espero que continue conosco nos próximos textos.
      Abraço e sigamos na luta.

      Responder

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